Geisse e as bolhas preciosas – Boca no Mundo
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07 de outubro de 2013

Geisse e as bolhas preciosas

À beira da piscina com vista para os vinhedos de pinot noir que descem o vale, acesos pelo pôr-do-sol a 800m de altitude, o chileno Mario Geisse leva à boca sua ‘flauta’ de rosé e afirma, pausadamente, no castelhano mantido após 38 anos de Serra Gaúcha: “Se o Brasil tivesse vindo antes de Champagne, a referência para os espumantes poderia ser brasileira”.

A frase poderia evaporar na taça, não fosse dita por um dos grandes enólogos do Novo Mundo, criador da primeira vinícola brasileira a fazer as duas coisas: champagne Premier Cru nas montanhas de Reims, na França, e espumantes pelo método tradicional em vinhedos próprios, com terroir demarcado em Pinto Bandeira, distrito de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.

Os tempos em que se ouvia o apelido de ‘El Loco’ entre os vinhedos de latadas que cobriam os vales, quando Mario inaugurou o sistema de espaldeiras e o cultivo de baixo rendimento na serra, ficam mais distantes a cada reverência que hoje se faz no mundo ao espumante do Brasil.

Dos 76 hectares comprados no fim dos anos 70 com dois caminhões de entrada – para convencer dois filhos da família proprietária, que queriam ser caminhoneiros -, Mario separou para seus vinhos os 23 com maior potencial.

Conheça aqui a história da Cave Geisse e sua linha de espumantes.

Futuro e Presente

Com o filho Daniel e sua equipe, o enólogo de 66 anos está iniciando com geógrafos e pesquisadores da PUC-RS um estudo inédito de solo, para entender melhor o que se passa no fundo de cada metro de suas terras de origem vulcânica.

É neles que cultiva, há três décadas, as duas únicas castas impressas nos rótulos do Cave Geisse: pinot noir e chardonnay. Faz 200 mil garrafas por ano, todas pelo método tradicional.

Seu Cave Geisse 1998, com 14 anos de guarda, encantou a renomada crítica inglesa Jancis Robinson, único espumante do mundo escolhido por ela em lista de 15 vinhos de exceção apresentados na Wine Future, em Hong Kong.

Se é difícil prever o futuro dos tintos e brancos nacionais, os borbulhantes fazem do Brasil um gigante no presente. E Mario é nome de ponta no processo.

Boca no Mundo – Quais são as características do bom espumante brasileiro, que o fazem rivalizar com o champagne?

Mario GeisseO espumante do Brasil é muito fresco, equilibrado em acidez e estrutura, mais fácil de beber que o champagne. Me atrevo a dizer que, se o espumante brasileiro tivesse vindo antes, poderia ser ele a referência. Tenho feito degustações às cegas, com franceses que não se atrevem a dizer quem é quem. Mas não temos que nos preocupar em imitar ninguém.

BM – E quais são as particularidades da região de Pinto Bandeira, que fizeram você plantar suas raízes no Brasil?

MGA particularidade da região é que as uvas conseguem um amadurecimento completo, de casca, semente e polpa,  com muito boa acidez e baixo teor de açúcar, características que permitem o espumantes de alta qualidade. São poucas regiões vinícolas no mundo com nível semelhante para se fazer esses vinhos. Você pode construir uma vinícola, aprender o processo industrial, comprar ou copiar a tecnologia, mas a qualidade da uva é o grande diferencial no processo vitivinícola.

BM – Por que apenas chardonnay e pinot noir, quais são as vantagens dessas variedades?

MGSão as duas uvas que entregam os melhores produtos, com a melhor capacidade de envelhecimento, que é algo muito importante. É o caso da nossa safra 98, que foi a Hong Kong como expoente máximo do espumante no mundo. São variedades precoces, que conseguem aqui um ótimo amadurecimento, sem defeitos ou amargor.

BM – E a opção pelo método champenoise em todas as linhas de espumantes?

MGPelo método charmat, com as mesmas uvas, você terá ótima qualidade. Mas o método tradicional permite complexidade e durabilidade, estrutura e redondeza das leveduras.

BM – O estudo de solo em parceria com universidades vai trazer que tipo de informação que você ainda não tem sobre seu terroir?

MGCom 36 anos trabalhando no mesmo vinhedo você chega a um nível muito alto de conhecimento. Ele te permite separar bem as características da uva e trabalhar de acordo com o que há no solo. O estudo que começamos quer alcançar algo transcendental. Ir onde as pessoas não conseguem enxergar, ou perceber no produto. Vamos conhecer a mineralização de cada setor de acordo com a rocha mãe, um basalto vulcânico. A mineralidade é uma característica importante do Cave Geisse, e vamos evoluir entendendo melhor como ela se produz.

BM – O Brasil deveria abandonar os vinhos tranquilos e investir nos espumantes? Como anda a qualidade dos outros vinhos?

MGO Brasil faz vinhos tranquilos com características específicas, deve buscar sua identidade e progredir dentro do estilo próprio. Há o merlot na Serra Gaúcha, há brancos interessantes em Santa Catarina. No Sul, a Campanha é uma nova região que se destaca. Há espaço para todos.

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