Moluscos de Gaudí – Boca no Mundo
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20 de maio de 2013

Moluscos de Gaudí

A primeira vez que ouvi falar na tal navalha do mar foi lendo na infância o Almanaque Disney. Lembro da ilustração da concha estranha e comprida enfiada na areia. Muitos anos depois, permitam-me a poesia, conheci os deliciosos moluscos pelas mãos de Gaudí.

Imerso nas profundezas marinhas de peixes, caramujos, corais e redemoinhos da Casa Batlló inventada pelo arquiteto, ou viajando entre as colunas em formas de árvores, plantas e flores da Sagrada Família, natureza transformada em templo pelo gênio, chego faminto ao La Paradeta, a um quarteirão da igreja inacabada.

Na Passatge Simó, pequena travessa pouco notada pelas multidões de turistas que frequentam a região, o cliente é recebido por peixes, lulas, polvos e camarões de cores, tamanhos e aparências distintas. Ostras, conchas e caramujos de todos os formatos.

Lagostins e lagostas vivas, caranguejos robustos que se chamam bois do mar (com o preço escrito na carcaça) e elas, as tais ‘navajas’ amarradas em grupos de cinco ou seis, aguardando a hora de passar pela chapa quente e receber no prato o tempero de azeite, salsa e alho. Delicadas e deliciosas. Adocicadas e com leve gosto de mar.

Os moluscos são capturados na areia na areia lambida pela maré, com um pouco de sal espalhado na boca dos túneis que escavam. Emergem na vertical, como periscópios, sem saber o que lhes reserva o destino.

A dica é comer de tudo um pouco, povoando a mesa de pitéus como os minipolvos, as minilulas e os ‘changuetes’, micropeixes reconhecíveis pelos dois olhos pretos do tamanho de ciscos, fritos, crocantes e escoltados pelas fatias de limão siciliano que acompanham tudo na casa.

De entrada tem sopa ou salada, o pão é pedida obrigatória para tantos caldos que restarão nos pratos, e entre as opções de molho prefiro o espanhol romesco, à base de tomate, alho, amêndoas, azeite e pimentões doces.

Peixaria com DJ? Conheça aqui a casa sui generis de Lisboa.

Bandejão do Mar

O restaurante funciona assim: o cliente escolhe os bichos apontando sobre a bancada de gelo, como em peixaria, o atendente pesa e diz o preço. Cada um recebe seu número uma bandeja, escolhe a bebida, paga e senta-se na mesa aguardando o chamado no microfone.

Então é só se dirigir à janelinha e buscar a sinfonia marinha nos pratos. Enquanto nos divertíamos com cigalas (espécie de lagostim), camarões e sépias grelhados, além de minilulas empanadas e outras coisinhas, na mesa ao lado um casal se dedicava a mexilhões que transbordavam no prato, as conchas em molho à base de tomate.

No salão de ambiente simples que lembra o dos ‘bandejões’, amigos, casais, famílias, velhos e crianças comem lambendo os beiços e os dedos, e no final ganham lencinhos de lavanda para limpar as mãos.

Depois de frutos do mar à vontade e vinho nas taças, a conta fica ali pelos 25 euros.

Há cinco unidades do La Paradeta na cidade, e vale o programa casado com a Sagrada Família. A conclusão da igreja de sonhos que Gaudí começou a construir em 1883 está marcada para 2026, centenário da morte do arquiteto. Não é admissível ir a Barcelona sem visitá-la.

E dar uma alô às navalhas do mar…

La Paradeta. Passatge Simó 18, Barcelona. Tel. 934 500 191. De terça a quinta, das 13h às 16h, e das 20h às 23h. Sexta e sábado, das 13h às 16h, e das 20h à 0h. Domingo, das 13h às 16h. A casa não aceita cartões.




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