O Palácio das cervejas em Copacabana – Boca no Mundo
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22 de fevereiro de 2018

O Palácio das cervejas em Copacabana

Tá vendo essa marmota de olho na carne? Pois é. Estava me devendo há certo tempo algumas linhas sobre a ótima e inédita carta de cervejas da Churrascaria Palace, porque não há no Rio nada parecido em restaurantes. A seleção do sommelier e professor José Raimundo Padilha, um profissional que entende do bordado, abraça 21 cervejas produzidas no estado, sem repetir cervejaria.

Além de abrir um caminho importante para o mercado das cervejas artesanais, e para o próprio desenvolvimento da gastronomia carioca – com a visão da qualidade que faz da Palace a melhor churrascaria rodízio da cidade -, o menu dedicado à bebida alcoólica mais consumida no mundo é um parque de diversões para que gosta de comer e beber em harmonia.

A parte sólida da brincadeira, no caso, vai de ostras frescas, moluscos e crustáceos, a sushis e sashimis, além de saladas variadas, seleção de queijos (bingo!) e frios como o autêntico jamón serrano, isso tudo antes de falar das carnes de boi, porco, cordeiro, frango, e dos peixes de mar ou rio.

Só me resta bater palmas quando uma coleção de sabores de tamanha amplitude encontra seleção precisa da bebida que mais oferece possibilidades de harmonização com a comida. Como declarou no lançamento da carta, Padilha quis abrir uma ‘vitrine’ do ótimo nível da produção cervejeira no Rio, e orientar a carta em direção ao clima quente e o ambiente de descontração cariocas.

Um passeio que visita o frescor, o dourado e o frutado, os aromas tropicais, as especiarias e a efervescência de cervejas que servem também para matar a sede – tem que hidratar, gente.

Dilema da Preta

Quando li a carta pela primeira vez, senti falta de mais escuridão e maltes tostados, torrados ou até defumados – quem já passou por um bom churrasco com uma rauchbier entende o que estou dizendo.

A Brewpoint Dunkel, no caso, é a única cerveja escura a explorar as possibilidades das carnes grelhadas com ênfase nos aromas maltados e de tosta, no toque de chocolate característico do estilo alemão.

Mas a opção pela produção local (e, portanto, mais fresca), na casa situada a poucos metros do mar de Copacabana, justifica as escolhas de Padilha.

Sem falar no aspecto comercial, no fato de que a ‘cultura cervejeira’ que impera no Rio é a da cerveja clara e de sabor leve – com espaço cada vez maior garantido nas boas geladeiras do ramo para as IPAs de família norte-americana, refrescantes toda vida.

Em resumo: não é fácil vender cerveja escura em restaurantes do Rio, embora elas sejam muito amigas da gastronomia. Noções de harmonização são raras aos bebedores em geral, mas não me parece otimismo exagerado esperar mudanças no quadro em futuro próximo.

Louras ao Mar

Para iniciar namoro, o arsenal de bichos marinhos servidos de entrada na Palace – tentáculos e anéis de lula, camarões empanados e as ostras frescas do bufê – pode ser bem amparados por witbiers de primeira linha como a Búzios Brigitte e a Easy Dive, da Ocêanica.

Quando tive o prazer de dividir a mesa na Palace com o amigo e mestre Padilha, por sinal, regamos algumas ostras com witbier e o resultado foi só alegria.

No território das louras, vale registrar também a presença de duas ‘blond ales’ de se tirar o chapeú. Uma de estilo americano, e outra de figurino belga: a Sweet Sofia, da OverHop; e a Brothers, da Gaspar Family.

São cervejas daquelas para se ter na geladeira. A Sofia com maior ataque aromático dos lúpulos, e a Gaspar exibindo equilíbrio notável, caindo para a doçura frutada e a complexidade aromática, embora sutil, das leveduras comuns às belgas do gênero. Pedidas interessantes para os mexilhões, polvos, peixes mais gordurosos (do Festival Amazônico), saladas mais consistentes e com frutas, queijos e, quem sabe, pedidas ‘japonesas’ disponíveis no salão.

Amargo Perfumado

As american pale ale (APA) e india pale ale (IPA) são belo capítulo, onde o vigor dos lúpulos e o volume elevado de amargor, em camas bem forradas de maltes fazem a festa, ‘segurando’ qualquer uma das possibilidades de carnes na brasa.

A Marmota IPA se destaca na turma, inclusive podendo conversar com os camarões VG que pintam de vez em quando nos espetos. Sim, American IPAs e camarões grelhados na casca podem causar momentos de prazer, experimente e depois me conte.

Aumentando a potência, a Carioca Double IPA #2 (8,3% ABV) solicita a presença de itens como a incrível morcilla produzida no interior de São Paulo, um dos grandes ‘segredos’ da Palace. No caso, o lance é fazer logo o cabelo e o bigode com a garrafa, pedindo ao garçom (e cozinheiro) Índio o célebre costelão bovino, e a picanha borboleta que é marca do restaurante.

Destaco ainda a presença da Hell de Janeiro, a ‘india pale lager’ da Motim, da qual sou fã de carteirinha; da Noi Tramonto, de Niterói, uma american wheat feita com caju que apresenta a fruta de primeira em boca e nariz; e da Cerol Fininho, a session IPA da Suburbana.

Outra pedida interessante é a Kölsh da cervejaria W-Kattz, representante do estilo alemão quase inexistente entre as artesanais do Rio. Uma boa opção para as ostras e entradas leves, com seus maltes claros e definidos, perfume floral e frutado bem sutis.

Um brinde à Palace, e fica a pergunta: quando é que um dos grandes chefs do Rio, ou mesmo do Brasil, vai criar um menu degustação inteiramente harmonizado com cervejas em seu restaurante, levando à alta gastronomia uma carta criteriosa como opção ao mar de vinhos?

O Time

3 Cariocas Copacabana / BrewPoint Dunkel / Búzios Brigitte / Carioca Double IPA / Chopp Artesanal Mistura Clássica / Gaspar Family Brew Brothers / Green Labs Jazzy Ginger Beer / Hija de Punta / Hocus Pocus Magic Trap / Labirinto Trip / Marmota IPA / Mistura Clássica Pilsen / Motim Hell de Janeiro / Noi Tramonto / Oceânica Easy Dive / Overhop Sweet Sofia / Praya / Röter Summer Ale / Suburbana Cerol Fininho / Trópica Bora Bora / W Kattz Kölsch

Com fotos de Panelando e Roberto Hirth.




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