Botafogo e o delicioso Rio sustentável
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Se o Rio ferve, Botafogo fermenta. Forja nos trigos e maltes milagres de pão e colarinho. Na cadência das leveduras que pairam invisíveis, desenha na paisagem urbana o mais novo e interessante terroir da gastronomia carioca.
A mudança de eixo está mais clara a cada dia, em propostas de negócios que prezam a qualidade sem maquiagem, e aplicam rasteira providencial na gentrificação que julgava-se vencedora no modo olympic decontrol.
Modelos que celebram produto e produtor em mesas coletivas, apontando saídas para um Rio de generosidade e parceria – ingredientes tão presentes no Brasil atual como o caviar de esturjão. E apresentam, sobretudo, deliciosos cardápios que convidam a gastar o sapato onde costumamos passar no estresse das rodas estáticas.
Rosbife, gruyère e cebola roxa no CoLAB:
O engarrafamento, porém, ganha sentido novo de kombuchas, vinhos orgânicos, sidras e brejas de altos lúpulos. Isso para citar apenas o novo trio que ilumina o Baixo Polidoro, da Real Grandeza em direção à Rua da Passagem: The Slow Bakery, CoLAB e South Ferro.
Em ligeira perspectiva, diria que a semente plantada em projetos como Comuna e Junta Local cresce formosa, abrindo novas portas de garagem que parecem trazer o eterno aviso de “estamos em construção”, da crueza limpa dos ambientes à arquitetura inacabada das cozinhas abertas e integradas ao papo de quem se aprochega.
Muffin de mirtilos no South Ferro:
Laboratório Universal
Tirei a sorte grande no desjejum atrasado que me levou ao CoLAB, ao lado de dois brechós e da vila oculta do Fica Café, assunto para outro post. Sem perder o rumo da prosa: estavam abertas as torneiras da APA Caravan, a breja da vez anotada a pilot no rolo de papel na parede, que me fez optar pelo curry amarelo de shitake e legumes. Ou teria sido o contrário?
Curry amarelo de shitake e American Pale Ale no CoLAB:
Se a alma cantar noutro tom, o menu da casa aberta pelo Rodrigo Abe, engenheiro de 30 anos, se divide em dia e noite visitando clássicos da informalidade urbana de diversos mundos, com base num Brasil que mora em produtos como o chocolate ‘bean to bar’ da Quetzal, 80% de cacau baiano de origem e adoçado com açúcar de coco, fábricado no subúrbio carioca.
Waffle e iogurte com berries, mel e granola no CoLAB:
Também pintam waffles e bruschetas no pão sourdough do Zé (CB Pane), como a de abacate, gruyère, tomate, ovo cozido e picles. Habemus hambúrgueres, e para esses voltarei com calma, ou falafel com homus e salada no pão pita. O English Breakfast lidera a tropa: cogumelos, ovos, bacon, linguiça, tomates e baked beans.
English Breakfast no CoLAB:
A sede ali se mata com a kombucha da dinamarquesa Nelly, long necks de sidra artesanal Épo (da curitibana Morada), e o Baer-Mate de inspiração alemã, gaseificado e com maçã. A frequência mistura tudo entre o vizinho e o estrangeiro, com uma guitarra no canto que costuma entrar em ação para jam sessions – sessões com geleia, por que não?
Kimchi Sobre Cogumelo
Novembro vem aí, e o bicho vai pegar na General Polidoro, a 40 passos do CoLAB. Semana passada, não faltaram curiosos no asfalto ou calçada esticando o pescoço sobre porta e janela de vidro abertos na parede de algum provável depósito vizinho das oficinas mecânicas.
Mal sabiam que Sei Shiroma ali testava as engrenagens de seu novo laboratório. Agora é enorme e industrial o forno que serve a uma das mais criativas produções artesanais da praça.
Pizza de linguiça andouille caseira no South Ferro:
Pai japonês, mãe chinesa, nascido em Nova York e carioca por um sopro divino, o samurai dos mehores glútens chegou a Botafogo para mostrar com quantos pontos de exclamação se faz um croissant. Que muffin pode ser sinônimos de nuvem.
O inventor da pizzaria Ferro e Farinha deu vida à South Ferro, em soft opening de poucos dias e ideias variadas, seguindo o estilo dos improvisos que começaram no Catete a desconcertar os integrantes do PCC (Paladar Conservador Carioca).
Croissant impecável do South Ferro:
Além de pizzas em formatos variados e combinações diferentes como o molho fermentado de kimchi regando cogumelos paris, o cozinheiro andou servindo pratos de almoço como a combinação de curry de grão de bico, ovo mole, brisket desfiado e repolho roxo.
Joelho de 48 Horas
A nós, gulosos incuráveis, só resta louvar o Deus Trigo no templo que alimenta a massa madre de exatos 154 anos, presenteada por amigo indiano ao padeiro Rafael Brito, publicitário que certo dia afastou computadores e meteu na sala um forno “mequetrefe”, nas próprias palavras.
O pão feito de tempo com farinha, água e sal que pousa no largo balcão de mármore começou a ser preparado três dias antes do momento em que, extasiados, lhe cravamos os dentes no mesão de madeira do The Slow Bakery.
Baguetes no balcão da The Slow Bakery:
Em pausa entre fornadas, Rafael está por ali falando sobre a moderna relação entre agricultores e padeiros nos States, e revela o sonho de plantar seu próprio trigo – não convém duvidar do sujeito. O espaço aberto com Ludmila, mulher e parceira de boas aventuras, tem feito críticos contidos se ajoelhar à frente dos sourdoughs, baguetes e uma focaccia do tamanho de um travesseiro que aparece às 16h para embalar os sonhos.
Joelhos e a focaccia no The Slow Bakery:
Vai de limonada pink ou taça da Vinhética, o projeto vinícola orgânico do francês Gaspar Desurmont na Campanha Gaúcha? A dúvida apertou e fui obrigado a pedir os dois para esperar o joelho da casa: brioche de 48h fermentando, com parmesão da Mantiqueira, presunto e bechamel. A tartine de tomates cereja e queijo de cabra, na foto que abre o post, é obrigatória.
Nos ecos do estrondo causado pela Slow no cenário da alimentação carioca, Rafael recebe currículos até da Europa, e tem gente querendo pagar para trabalhar na casa. Ele prefere, porém, dar prioridade a jovens do Núcleo Avançado em Tecnologia de Alimentos (NATA), projeto premiado em escola estadual no Colubandê, em São Gonçalo.
Medalha de ouro, com legado.